É comum ouvirmos críticas a postura do povo brasileiro, quase sempre passivo as mudanças propostas pelos governantes. Dizem que somos apolíticos, acomodados, que temos uma postura de espera que o Estado faça as coisas por nós e que deveríamos construir nossos rumos e os de nosso país. Tudo isso é correto, não podemos negar que isso ocorre mesmo e que seria importante mudar esse estado de coisas. Aliás, diga-se de passagem, já passou da hora de tomarmos essa atitude. Porém precisamos refletir sobre alguns pontos: Na maioria dos países, o nascimento do sentimento de nacionalismo surgiu antes do que o Estado, primeiro houve o sentimento coletivo de fazer parte de um mesmo povo, mesmo país, mesma nação e esse sentimento levou e fomentou a criação dos Estados independentes. No Brasil, ocorreu ao contrário, a criação do Estado antecipou-se ao sentimento de ser brasileiro. O Brasil tornou-se nação formada por um povo que nem tinham consciência do que era ser brasileiro, esse povo eram ninguém. Os mestiços que nasciam na terra, não eram índios, não eram africanos e nem portugueses. Eles discriminavam índios e negros, pois não queriam pertencer a esse grupo social, e eram discriminados pelos portugueses que os consideravam mestiços, portanto, inferiores. Aliás, a palavra brasileiro por si só já demonstra esse preconceito, pois na língua portuguesa o sufixo pátrio, gentílico é o “ense”. Paranaense, piauiense, maranhense e assim vai. O sufixo “eiro” designa profissão, por exemplo, padeiro, pedreiro, faxineiro, etc. Assim, brasileiro era a profissão exercida por quem cortava pau-brasil, era profissão e funcionou para designar essas pessoas que não nada, não pertencia a nada e ficou brasileiro. Antes de ser motivo de orgulho para essas pessoas, era antes de tudo um termo que as rebaixavam, então, como querer que um povo se engaje em algo? Um povo excluído, discriminado, rebaixado. Prova disso é que todas revoluções populares foram sufocadas a ferro e a fogo. Nossa independência e proclamação da República foram alijadas da participação popular, as pessoas nem sabiam o que estavam acontecendo e para elas, essas canetadas mudaram pouca coisa. Sobre esse assunto, coloco um vídeo do Darcy Ribeiro em que o próprio autor nos fala dessa nação feita de ninguéns. É preciso ter isso em mente para entendermos toda nossa falta de amor próprio.
sábado, 31 de outubro de 2009
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Uma sociedade chamada eu
Queridos leitores, vocês já pararam para pensar o quanto carregamos da sociedade em nossas entranhas? Gandhi, estava com razão quando afirmou que seria mais fácil derrubar a muralha da China do que um preconceito, pois a primeira é apoiada apenas em tijolos, portanto, tirando um, cairão todos. Já os preconceitos são feitos por idéias que foram sendo calcados durante anos na vida de alguém e tira-los, sem dúvida, é muito difícil.
O processo de socialização por qual todos nós passamos faz com que introjetemos seus ideais como se fossem verdades universais, poucas vezes nos questionamos. Imagine-se em sua sala, não há ninguém em volta, você está sozinho vendo TV. De repente, você solta um pum. De maneira incrível, você ficará com vergonha, mas de que? Está sozinho? Mas a sociedade está em você. Seus valores e normas te regem mesmo que não perceba.
Esse fato faz com que nós nos comportemos por conveniência, não do modo que queríamos nos comportar, mas do modo como os outros queriam que nós nos comportasse. Ou melhor, as regras estão tão bem assimiladas que nosso comportamento já é automático, nem percebemos que aquilo foi pré-determinado, portanto, achamos que somos livres.
Albert Camus em seu livro “O Estrangeiro” nos relata com maestria tal fato. O personagem dele não vive por conveniência e há muito tempo não convive com a mãe, certo dia, a idosa falece e ele vai ao enterro, mas não chora, pois para ele não havia sentido para isso, pois há tempos que não convivia com aquela mulher. Tempos depois ele se envolve em um assassinato, mata um homem acidentalmente, e o juiz o condena, não pelo fato em sim, mas sim por ele não ter chorado no enterro da mãe, isso, na visão do juiz era inadmissível. Por essa razão, o nome do livro de Camus é o estrangeiro, pois quem não age de acordo com as regras sociais são estrangeiros.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Frágeis Pilares II

Além do fato já descrito por mim no post anterior de que a crença em uma verdade representa acreditar que a nossa vida tem algum sentido. Crer em uma verdade protege o ser humano da anomia. É como se fosse uma barreira que todos nós criamos para não cair em uma armadilha anomica.
Alguns leitores estão a se perguntar o que é anomia? Pois bem, esse conceito descrito pelo sociólogo Emile Durkheim significa uma mudança brusca na realidade social do indivíduo, mas tão brusca, que o mesmo não consegue se adaptar a nova realidade e em alguns casos mais agudos, a pessoa chega ao suicídio anomico.
Por exemplo, alguém que do dia para a noite se vê falido, ele com certeza terá imensa dificuldade para se adaptar a pobreza, essa mudança radical em sua vida social o fará entrar em depressão e em alguns casos se matar. O inverso também ocorre, alguém que ganhe na loteria e fique rico repentinamente também terá dificuldades de adentrar nesse novo ciclo social, fará com que cometa várias gafes, pois seu “mundo” não é aquele.
Explicado o que seja anomia, partiremos para explicar o motivo pelo qual afirmo que a crença de que exista uma verdade serve para proteger as pessoas desse processo social degradante e para isso vou precisar do esforço imaginativo dos queridos leitores.
Imagine uma pessoa que sempre ouviu, por exemplo, que beber leite e chupar manga faz mal (recorro a esse exemplo, pois todos sabemos que isso é uma inverdade, mas serve para todas “as verdades”). Será que após viver anos e anos ouvindo a mesma história de diversas pessoas, sobretudo, o pai e a mãe, essa pessoa irá acreditar em uma pessoa que lhe diga que isso não passa de um mito? Mesmo que essa pessoa a prove por diversos estudos científicos, nada a fará acreditar, pois sua mente está formatada a acreditar no oposto.
Abandonar nossas verdades significa reconhecer que vivemos anos e anos errando, que perdemos muito de nosso tempo nos guiando por falsos ideais e isso é insuportável para todos nós. Requer que passemos a pensar de outra maneira, a nos adaptar a uma nova realidade, daí a condição anomica que isso representa.
Há pessoas que são extremamente radicais em suas opiniões, isso para mim representa pouca capacidade de mobilidade social, pessoas mais abertas são mais móveis socialmente falando, ou seja, se adaptam mais rapidamente ao novo, por isso não o temem.
Para finalizar, milhares de índios foram mortos devido o contato com o português que lhe trouxe vários vírus a que seus corpos não estavam preparados, mas o pior vírus que o “homem branco”, foi o vírus cultural, ao impor suas verdades aos índios, esses de uma hora para outra não sabia mais o que era certo e o que era errado.
Suas crenças, suas verdades foram reprimidas, sobretudo, pelos jesuítas que impuseram sua fé aos índios. Esse processo de acultaração foi tão o quanto mais perverso que os vírus biológicos.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Frágeis Pilares I
Há alguns posts atrás afirmei que a verdade não existe, mas as pessoas precisam crer que existe uma verdade. E porque isso acontece? Existem dois fatores que podemos usar para explicarmos tal necessidade. A primeira reside no fato que a existência de uma verdade possibilita ao homem confiar que sua vida tem algum sentido.
Viver sem verdades significa viver sem certeza e isso é impensável para qualquer um de nós. Albert Camus em seu livro O Mito de Sísifo fala com propriedade que a vida humana vai ao encontro do absurdo. E realmente. Vivemos para quê? Para onde estamos indo? Será que nossos planos e objetivos nos levarão a algum lugar? O ser humano assim como Sísifo está condenado a levar uma pedra até o alto de uma montanha e deixar rolar abaixo, para no outro dia levá-la de novo. Nossos esforços são repetitivos e de resultado incerto.
O problema é que para muitas pessoas é impossível encarar essa dura realidade, para nós é preferível acreditar que nossa vida tem algum sentido embasado nas verdades que criamos e acreditamos piamente, até que um dia, em um segundo, um fato faz cair todas nossas certezas e enxergamos nossa vida de outra maneira.
Não caros amigos, não sou apocalíptico, mas acho que devemos ter consciência da fragilidade de nossas verdades, e que a verdade do outro é tão verdadeira quanto as nossas. Como dizia um professor meu: o homem morre sem dentes, sem cabelos e sem ilusões, então para que alimentá-las?
Eu sei e entendo que essas ilusões muitas vezes é o que nos mantém vivos, mas precisamos ter o distanciamento necessário para saber que elas não passam de ilusões e a qualquer momento podem se desmanchar. Pois como afirmou Marx: “tudo que é sólido se desmancha no ar”.O segundo ponto que fazem as pessoas terem certeza da existência de uma verdade está relacionado ao conceito de anomia. Mas esse é assunto para os próximos posts.
Viver sem verdades significa viver sem certeza e isso é impensável para qualquer um de nós. Albert Camus em seu livro O Mito de Sísifo fala com propriedade que a vida humana vai ao encontro do absurdo. E realmente. Vivemos para quê? Para onde estamos indo? Será que nossos planos e objetivos nos levarão a algum lugar? O ser humano assim como Sísifo está condenado a levar uma pedra até o alto de uma montanha e deixar rolar abaixo, para no outro dia levá-la de novo. Nossos esforços são repetitivos e de resultado incerto.
O problema é que para muitas pessoas é impossível encarar essa dura realidade, para nós é preferível acreditar que nossa vida tem algum sentido embasado nas verdades que criamos e acreditamos piamente, até que um dia, em um segundo, um fato faz cair todas nossas certezas e enxergamos nossa vida de outra maneira.
Não caros amigos, não sou apocalíptico, mas acho que devemos ter consciência da fragilidade de nossas verdades, e que a verdade do outro é tão verdadeira quanto as nossas. Como dizia um professor meu: o homem morre sem dentes, sem cabelos e sem ilusões, então para que alimentá-las?
Eu sei e entendo que essas ilusões muitas vezes é o que nos mantém vivos, mas precisamos ter o distanciamento necessário para saber que elas não passam de ilusões e a qualquer momento podem se desmanchar. Pois como afirmou Marx: “tudo que é sólido se desmancha no ar”.O segundo ponto que fazem as pessoas terem certeza da existência de uma verdade está relacionado ao conceito de anomia. Mas esse é assunto para os próximos posts.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Entender para Críticar II
Com esse vídeo termino a série que fala sobre o Nordeste no Livro de Darcy Ribeiro "Viva o Povo Brasileiro. Espero que tenham gostado e apreciado a história de uma região encantadora, de povo igualmente encantador, mas tão machucado pelo clima que castiga e pela história que condena.
"O Nordestino é antes de tudo um forte"
Entender para Críticar II
No post anterior vimos a primeira parte desse delicioso trabalho de Darcy Ribeiro. Nele ele destaca que a colonização do Nordeste esteve ligado a criação do gado vindo da Europa. Aqui eu queria colocar algo que entendo ser crucial para compreender o fato da Região ter sido sempre expulsivo e nunca atrativa.
Em minha visão o grande problema dessa linda região, de lindo povo não é, e jamais foi a seca, pois como vimos no vídeo anterior, o sertanejo desenvolveu uma cultura própria que o permitiu viver nessa região, interligado a ela. O sertanejo é tão forte quanto o chão que pisa e tão lindo quanto a flor da mandacaru.
O grande problema da Região é o latifúndio que não permitiu ao homem do lugar adentrar no mercado de produção. Os latifúndios e os coronéis, criaram uma massa humana de agregados sem muitas possibilidades na vida. Aliás, ao meu modo de ver, eram apenas quatro as possibilidades:
Em minha visão o grande problema dessa linda região, de lindo povo não é, e jamais foi a seca, pois como vimos no vídeo anterior, o sertanejo desenvolveu uma cultura própria que o permitiu viver nessa região, interligado a ela. O sertanejo é tão forte quanto o chão que pisa e tão lindo quanto a flor da mandacaru.
O grande problema da Região é o latifúndio que não permitiu ao homem do lugar adentrar no mercado de produção. Os latifúndios e os coronéis, criaram uma massa humana de agregados sem muitas possibilidades na vida. Aliás, ao meu modo de ver, eram apenas quatro as possibilidades:
- virar capanga do coronel e com isso manter tudo como estava
- entrar para os movimentos messiânicos na esperança que Deus pudesse mudar as coisas ou garantir uma outra vida melhor quando morrer
- entrar para o cangaço e tentar mudar os estados das coisas na bala
- ou fugir para o sul.
Desse modo, capangas, os beatos de Antonio Conselheiro, os canganceiros do bando de Lampião e os retirantes são a mesma coisa, pois são frutos do mesmo sistema econômico perverso.
Compatilho com vocês o segundo vídeo dessa excelente obra.Entender para Críticar
Darcy Ribeiro dedicou sua vida a entender e explicar o Brasil. Uma de suas obras mais brilhantes é o Povo Brasileiro. Nesse estudo, esse grande antropólogo se debruça ao processo de colonização brasileiro para explicar as peculiaridades de cada uma das regiões que compõem nosso belo país. Desse modo, Ribeiro dividiu Brasil em cinco grande blocos que ele chamou de Brasil Cabloco (Norte - influência índigena); Brasil Sertanejo (Nordete - influência portuguesa, latifundio); Brasil Afro (litoral - influência Africana); Brasil Caipira (Sudeste e Centro-0este - influência dos bandeirantes e Brasil Sulino (Sul - inflência imigração európeia).
Desse grandes blocos, queria ressaltar o Brasil Sertanejo dedicado ao nordeste, região marcada pela seca, a exclusão, o latifúndio e os coronéis e senhores de engenho, ou seriam feudais. E quem vai explicar é um vídeo baseado nessa grande obra de Darcy Ribeiro. Acompanhem e espero que gostem. Destaque para a fala do grande Ariano Suassuna!
Desse grandes blocos, queria ressaltar o Brasil Sertanejo dedicado ao nordeste, região marcada pela seca, a exclusão, o latifúndio e os coronéis e senhores de engenho, ou seriam feudais. E quem vai explicar é um vídeo baseado nessa grande obra de Darcy Ribeiro. Acompanhem e espero que gostem. Destaque para a fala do grande Ariano Suassuna!
Dica da Zona
Esse post inaugura uma nova sessão nesse blog. Semanalmente posstarei nesse espaço dicas de livros, filmes e músicas.Para inaugura-la, vamos as dicas:
LIVRO - A Menina que Roubava Livros - Marcus Suzak - Um livro encantador, poético. Uma história forte contada pela morte sobre alguns fatos da 2ª Grande Guerra, no meio uma menina, orfã que encontra a salvação nos livros que le. Interessados podem ler o 1º capítulo aqui.
FILMES - Salve Geral, O Dia em que São Paulo Parou - Direção Sérgio Rezende - Impactante, bom filme sobre a história recente da maior cidade brasileira. Há tempo que não saio do cinema tão impactado. Acompanhe o trailer.
MÚSICAS - O novo CD da Zélia Duncan - Pelo Sabor do Gesto - é um dos melhores que eu ouvi nos últimos três anos. São 14 músicas, das quais pelo menos 10 você aperta o botão do repeat do seu aparelho de música. E Há uma música que exemplica toda a poesia e delicadeza presentes na maioria das canções desse álbum, seu título é Telhados de Paris. Ouça
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
O mundo das incertezas!
Começo esse texto com duas provocações a quem por ventura desperdiçar seu precioso tempo lendo essas bobagens. A primeira: esqueçam as verdades, nada daquilo que vemos ou entendemos não passa de mera ilusão, mera construção, enfim, mera representação. A segunda: troquem os sinais de exclamação por interrogações e verá que aquilo que tem como certo, não é tão certo assim.
Espero que os leitores que começaram a ler esse texto não fiquem tão chocados que o abandonem. O pensador francês Jean Boudrillard há algum tempo já anunciou a proeminência do signo. A representação hoje é mais real que o objeto, esse está vazio, não tem mais sentido.
Certo dia estava assistindo ao jornal local e foi entrevistada uma cantora que fazia uma apresentação na cidade naquela noite. O cenário do show, segundo a cantora representava o seu quarto, pois ela queria que o público se sentisse como se estivesse tocando e cantando no seu quarto. Ora, ela nunca conseguirá isso! Ali estão apenas signos, representação. Ali não é e nunca será o quarto dela, apenas representações vazias que cada espectador da platéia construirá e perceberá de uma forma.
Isso vai ao encontro do que diz a semiótica peirceana que também afirma que o signo não recobre todo o objeto, pois se assim fosse signo e objeto seria a mesma coisa. Para tornar mais claro: um mapa não é o território, ele apenas o representa. Caso conseguimos fabricar um mapa do tamanho de um território, os dois seria a mesma coisa.
Porque afirmo isso? Para tentar demonstrar aos que me leem que o signo apenas dá indícios sobre o objeto, ele não é o objeto. O signo cumpre sua função pelo e através de quem o interpreta, que lhe dá sentido. Desse modo, uma cena que choca várias pessoas, causam risos em outras, indiferença em outras. E até mesmo o horror e o riso ante a cena possuem gradações diferentes, umas riem e se chocam menos ou mais que outras.
Aqui chego ao ponto crucial, pois desse modo a verdade não existe, cada pessoa tem a sua verdade, pois lida com a realidade de uma maneira diferente da outra. Eu tenho o meu arcabouço intelectual que me permitem enxergar o mundo de uma forma, minha mãe tem outro e a fazem enxergar os mesmos signos por outra perspectiva e formular outras verdades. Quem sou eu para falar que eu estou ou errado, tenho que apenas entende-la e aceita-la. Mostrar meu ponto de vista quem sabe? Mas nunca tentar impor nada.
A verdade não existe, a realidade é uma ilusão, cada pessoa constrói seu mundo a sua maneira. Isso é um ponto. E porque necessitamos tanto de uma verdade? Porque aceitar que nada é para sempre é tão difícil para algumas pessoas? Isso será tema do próximo post, espero que aguardem!
Espero que os leitores que começaram a ler esse texto não fiquem tão chocados que o abandonem. O pensador francês Jean Boudrillard há algum tempo já anunciou a proeminência do signo. A representação hoje é mais real que o objeto, esse está vazio, não tem mais sentido.
Certo dia estava assistindo ao jornal local e foi entrevistada uma cantora que fazia uma apresentação na cidade naquela noite. O cenário do show, segundo a cantora representava o seu quarto, pois ela queria que o público se sentisse como se estivesse tocando e cantando no seu quarto. Ora, ela nunca conseguirá isso! Ali estão apenas signos, representação. Ali não é e nunca será o quarto dela, apenas representações vazias que cada espectador da platéia construirá e perceberá de uma forma.
Isso vai ao encontro do que diz a semiótica peirceana que também afirma que o signo não recobre todo o objeto, pois se assim fosse signo e objeto seria a mesma coisa. Para tornar mais claro: um mapa não é o território, ele apenas o representa. Caso conseguimos fabricar um mapa do tamanho de um território, os dois seria a mesma coisa.
Porque afirmo isso? Para tentar demonstrar aos que me leem que o signo apenas dá indícios sobre o objeto, ele não é o objeto. O signo cumpre sua função pelo e através de quem o interpreta, que lhe dá sentido. Desse modo, uma cena que choca várias pessoas, causam risos em outras, indiferença em outras. E até mesmo o horror e o riso ante a cena possuem gradações diferentes, umas riem e se chocam menos ou mais que outras.
Aqui chego ao ponto crucial, pois desse modo a verdade não existe, cada pessoa tem a sua verdade, pois lida com a realidade de uma maneira diferente da outra. Eu tenho o meu arcabouço intelectual que me permitem enxergar o mundo de uma forma, minha mãe tem outro e a fazem enxergar os mesmos signos por outra perspectiva e formular outras verdades. Quem sou eu para falar que eu estou ou errado, tenho que apenas entende-la e aceita-la. Mostrar meu ponto de vista quem sabe? Mas nunca tentar impor nada.
A verdade não existe, a realidade é uma ilusão, cada pessoa constrói seu mundo a sua maneira. Isso é um ponto. E porque necessitamos tanto de uma verdade? Porque aceitar que nada é para sempre é tão difícil para algumas pessoas? Isso será tema do próximo post, espero que aguardem!
domingo, 25 de outubro de 2009
O mundo é aquilo que podemos sentir

Alguns posts anteriores, falamos que o ambiente social cria e condiciona nossos sentido, mas não podemos esquecer que essa relação, sem dúvida, é de mão dupla. O ambiente constrói nossos sentidos, e esses constroem o mundo a nossa volta. Essa construção e definida e “acabada” pelo aparato sensitivo dos humanos. Como bem fala o escritor José Saramago no documentário “Janela da Alma”: “Romeu provavelmente não se apaixonaria por Julieta caso conseguisse ver como uma águia, pois veria todas as imperfeições de sua pele”.
O mundo é construído a partir de nosso aparato sensorial, caso ficassemos todos cegos de uma vez só, o mundo tal qual é concebido hoje, simplesmente perderia o sentido, noções como beleza ganharia outro sentido.
Certamente José Saramago tem razão ao fazer tal afirmação, mas poderíamos falar também que Romeu poderia apaixonar-se sim, mas, sem dúvida, seu padrão de beleza seria outro. Nossos sentidos moldam a realidade que percebemos, se tivéssemos a capacidade auditiva do cachorro, nossa noção de silêncio e barulho seria completamente diferente, nossas músicas e instrumentos musicais idem.
É importante termos em mente que a realidade é captada por nós através de fragmentos, a partir dessas partes construímos nossa realidade. Experimente dar um óculos ou um aparelho de audição a quem não vê ou escuta como os demais ser humanos, a relação com o mundo que os cerca mudará completamente, será inteiramente nova.
Então podemos supor que se nossas acuidades sensoriais fossem outras, maiores ou menores, nosso mundo seria completamente diferente, pois nossas relações e critérios seriam outros também. Não podemos esquecer que a nossa percepção da realidade além de ser fragmentada é também mediada por signos. Nossas relações com os objetos são todas mediadas por signos. E são esses signos que nos permites construir sentido para o mundo que nos cerca.
Certamente José Saramago tem razão ao fazer tal afirmação, mas poderíamos falar também que Romeu poderia apaixonar-se sim, mas, sem dúvida, seu padrão de beleza seria outro. Nossos sentidos moldam a realidade que percebemos, se tivéssemos a capacidade auditiva do cachorro, nossa noção de silêncio e barulho seria completamente diferente, nossas músicas e instrumentos musicais idem.
É importante termos em mente que a realidade é captada por nós através de fragmentos, a partir dessas partes construímos nossa realidade. Experimente dar um óculos ou um aparelho de audição a quem não vê ou escuta como os demais ser humanos, a relação com o mundo que os cerca mudará completamente, será inteiramente nova.
Então podemos supor que se nossas acuidades sensoriais fossem outras, maiores ou menores, nosso mundo seria completamente diferente, pois nossas relações e critérios seriam outros também. Não podemos esquecer que a nossa percepção da realidade além de ser fragmentada é também mediada por signos. Nossas relações com os objetos são todas mediadas por signos. E são esses signos que nos permites construir sentido para o mundo que nos cerca.
sábado, 24 de outubro de 2009
Estamos só de passagem!

Queridos leitores, começo esse texto fazendo uma pergunta direta: quantos anos cada um de vocês acham que vão viver? Eu de minha parte penso que se chegar aos oitenta está bom demais. Oitenta anos! Se pensarmos que esse planetinha tem mais ou menos cinco BIlhões de anos, esses oitenta equivalem o mesmo que a vida de bactéria chinfrim, ou seja, alguns segundos.
Aqui faço minha segunda pergunta: para quê gastarmos esses míseros segundos com bobagens? Raivas, intrigas, aborrecimentos, nervosos, ódios e tudo mais correlatos que o leitor lembrar-se não levarão a nada, a não ser o desperdício desses ralos e parcos segundos com besteiras!
Além de desperdiçar nosso tempo com esses sentimentos ruins, ainda o vemos escorrer por entre os dedos apegados que somos a convenções sociais que nos amarram e não nos deixam viver a vida plenamente. Preconceitos, casamentos por convenção, de aparência e mais uma série que não permitem fazer o que queremos.
Aliado a essas bobagens, temos que ter em mente o caráter efêmero da vida, é meio clichê o que vou dizer, mas é a pura verdade: “nada é para sempre”, e como tal eu pergunta: “para que stresse”? Eu sei e entendo que o tesão e a felicidade são condições básicas para o envolvimento em tudo na vida (isso será tema de um texto que escreverei em breve).
Porém o que estou dizendo é que precisamos fazer o exercício diário de entender que tudo um dia acaba. Por mais que a situação seja difícil, temos que pensar que nada perdura para sempre. Não quero com isso que os leitores adotem uma postura derrodista ou conformista. Temos que lutar a cada dia por melhoras em nossa. O que coloco aqui é que nós não podemos tornar algo ruim e algo pior.
Assim não perdemos tempo com sentimentos menores e que não nos levam a nada e em lugar algum, lembremos sempre que tudo passa, nada é para sempre e, portanto, as coisas sempre podem mudar.
Afinal como diz a letra de uma canção: “estou aqui de passagem, esse mundo não é seu, esse mundo não é teu, estou aqui de passagem”.
Aqui faço minha segunda pergunta: para quê gastarmos esses míseros segundos com bobagens? Raivas, intrigas, aborrecimentos, nervosos, ódios e tudo mais correlatos que o leitor lembrar-se não levarão a nada, a não ser o desperdício desses ralos e parcos segundos com besteiras!
Além de desperdiçar nosso tempo com esses sentimentos ruins, ainda o vemos escorrer por entre os dedos apegados que somos a convenções sociais que nos amarram e não nos deixam viver a vida plenamente. Preconceitos, casamentos por convenção, de aparência e mais uma série que não permitem fazer o que queremos.
Aliado a essas bobagens, temos que ter em mente o caráter efêmero da vida, é meio clichê o que vou dizer, mas é a pura verdade: “nada é para sempre”, e como tal eu pergunta: “para que stresse”? Eu sei e entendo que o tesão e a felicidade são condições básicas para o envolvimento em tudo na vida (isso será tema de um texto que escreverei em breve).
Porém o que estou dizendo é que precisamos fazer o exercício diário de entender que tudo um dia acaba. Por mais que a situação seja difícil, temos que pensar que nada perdura para sempre. Não quero com isso que os leitores adotem uma postura derrodista ou conformista. Temos que lutar a cada dia por melhoras em nossa. O que coloco aqui é que nós não podemos tornar algo ruim e algo pior.
Assim não perdemos tempo com sentimentos menores e que não nos levam a nada e em lugar algum, lembremos sempre que tudo passa, nada é para sempre e, portanto, as coisas sempre podem mudar.
Afinal como diz a letra de uma canção: “estou aqui de passagem, esse mundo não é seu, esse mundo não é teu, estou aqui de passagem”.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Falácia Tecnológica
Há uma teoria da comunicação que me chama muito atenção (adoro essa disciplina, mas essa teoria em especial), seu nome é Teoria do Meio. Para os autores dessa corrente, sobretudo, McLuhan o que importa é o meio, muito mais que as mensagens que esses mesmos meios propagam, assim, para esses estudiosos não importa o que o TV transmita, apenas a invenção da TV por si só já geram impactos suficientes para transformar toda a sociedade.
Feito esse preâmbulo (ou como um amigo meu prefere chamar: nariz de cera), isso me leva a pensar na grande falácia ideológica que a tecnologia atual e seus avanços nos empurram goela abaixo. Há 20 anos quanto tempo perdíamos em uma fila de banco para pagar uma simples conta de água? Por vezes uma tarde inteira. Inventaram o caixa eletrônico com a promessa de que perderíamos menos horas em fila e assim teríamos mais tempo para o lazer.
Mas esse tempo que “economizamos” sem estarmos em filas é preenchido com mais trabalho. Isso é uma grande falácia, uma mentira deslavada e cruel, pois a cada novas invenções são criadas, novos meios surgem para nos facilitar a vida e o que vemos? Pessoas e mais pessoas estafadas, cansadas, estressadas, por quê? Simplesmente, devido ao acumulo de trabalho, o tempo que ganhamos com essas benditas/malditas invenções é compensado com mais trabalho! Queremos acompanhar os ritmos das máquinas, mas somos humanos.
Não nos custam fazer um exercício de imaginação. Quando não existia a luz elétrica, as pessoas dormiam 19h e acordavam 5h, com sua invenção prolongou-se as horas do dia, dormimos 23h hoje e acordamos? 6h, no máximo 7h. Acordamos cansados, de mau-humor já.
Há tempo. Não sou apocalíptico, nem entusiasta das novas tecnologias, mas temos que pensar em que essas porcarias estão fazendo com a gente, aceitamos essas invenções com os olhos brilhantes de uma criança e nos ferramos cada vez mais. Não acho que a tecnologia fará o mundo melhor ou pior, não sou vidente, mas sem dúvida o tornará diferente e temos que pensar sobre essas mudanças sem aquele ranço de nostalgia, pois sei que tinha muita gente que não dormia às 19h sem energia elétrica, eles ficavam nos puteiros a luz de velas.
Feito esse preâmbulo (ou como um amigo meu prefere chamar: nariz de cera), isso me leva a pensar na grande falácia ideológica que a tecnologia atual e seus avanços nos empurram goela abaixo. Há 20 anos quanto tempo perdíamos em uma fila de banco para pagar uma simples conta de água? Por vezes uma tarde inteira. Inventaram o caixa eletrônico com a promessa de que perderíamos menos horas em fila e assim teríamos mais tempo para o lazer.
Mas esse tempo que “economizamos” sem estarmos em filas é preenchido com mais trabalho. Isso é uma grande falácia, uma mentira deslavada e cruel, pois a cada novas invenções são criadas, novos meios surgem para nos facilitar a vida e o que vemos? Pessoas e mais pessoas estafadas, cansadas, estressadas, por quê? Simplesmente, devido ao acumulo de trabalho, o tempo que ganhamos com essas benditas/malditas invenções é compensado com mais trabalho! Queremos acompanhar os ritmos das máquinas, mas somos humanos.
Não nos custam fazer um exercício de imaginação. Quando não existia a luz elétrica, as pessoas dormiam 19h e acordavam 5h, com sua invenção prolongou-se as horas do dia, dormimos 23h hoje e acordamos? 6h, no máximo 7h. Acordamos cansados, de mau-humor já.
Há tempo. Não sou apocalíptico, nem entusiasta das novas tecnologias, mas temos que pensar em que essas porcarias estão fazendo com a gente, aceitamos essas invenções com os olhos brilhantes de uma criança e nos ferramos cada vez mais. Não acho que a tecnologia fará o mundo melhor ou pior, não sou vidente, mas sem dúvida o tornará diferente e temos que pensar sobre essas mudanças sem aquele ranço de nostalgia, pois sei que tinha muita gente que não dormia às 19h sem energia elétrica, eles ficavam nos puteiros a luz de velas.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Cultura e Status
Há uma três semanas, eu estava participando de uma série de seminários e em um desses dias cheguei um pouco mais adiantado do que de costume e fui a um café que existe ao lado do centro cultural em que acontecia os seminários.
Entrei pedi o cardápio e um detalhe me chamou a atenção: o alto preço das comidas! Caramba, um pastel cinco reais é muito caro. Em torno, compondo o ambiente, livros a venda, quase todos sobre culinária. Mais sustos. Os preços dos exemplares giravam em torno dos R$ 100 cada!
Na hora pensei algo que não sei se os leitores desse post concordarão, mas tive a impressão que Cultura nesse país está intimamente ligado a Status, a poder e consequentemente a grana.
Ou seja, os pobres não tem condições, ou melhor, requinte para frequentar um centro cultural, só os mais abastados e, portanto, pode-se cobrar aqueles preços exorbitantes nos preços dos alimentos e das publicações.
Mas será que isso é verdade, ou esses preços são exagerados para aumentare ainda mais o abismo entre os pobres e ricos nesse país. A cultura popular é barata, vários artistas nesse país vivem de cantar em bares e botequins em que o cover é três reais. Porque cobrar cinco reais em um pastel? Será que sabem de antemão ou presumem que o pobre, o lascado, o trabalhador não tem capacidade, gosto ou tempo de frequentar um centro cultural? São perguntas que me fazem pensar e cada vez mais ter certeza que a divisão errônea entre alta e baixa cultura não caiu totalmente.
Entrei pedi o cardápio e um detalhe me chamou a atenção: o alto preço das comidas! Caramba, um pastel cinco reais é muito caro. Em torno, compondo o ambiente, livros a venda, quase todos sobre culinária. Mais sustos. Os preços dos exemplares giravam em torno dos R$ 100 cada!
Na hora pensei algo que não sei se os leitores desse post concordarão, mas tive a impressão que Cultura nesse país está intimamente ligado a Status, a poder e consequentemente a grana.
Ou seja, os pobres não tem condições, ou melhor, requinte para frequentar um centro cultural, só os mais abastados e, portanto, pode-se cobrar aqueles preços exorbitantes nos preços dos alimentos e das publicações.
Mas será que isso é verdade, ou esses preços são exagerados para aumentare ainda mais o abismo entre os pobres e ricos nesse país. A cultura popular é barata, vários artistas nesse país vivem de cantar em bares e botequins em que o cover é três reais. Porque cobrar cinco reais em um pastel? Será que sabem de antemão ou presumem que o pobre, o lascado, o trabalhador não tem capacidade, gosto ou tempo de frequentar um centro cultural? São perguntas que me fazem pensar e cada vez mais ter certeza que a divisão errônea entre alta e baixa cultura não caiu totalmente.
O mundo dos sentidos I
Todos certamente já viram uma floresta ou entraram em uma mata fechada. Nessa experiência, esse habitat nos parece um aglomerado de árvores, todas iguais, sem nenhuma distinção entre elas. No entanto, índios e pessoas que moram nesses lugares conseguem diferencia-las, para eles cada árvore é única e nesse local que nos parece homogêneo, conseguem localizar-se e até construírem caminhos. Seremos cegos?
Com certeza não. O que devemos levar em conta nesse caso e é que nossos sentidos são “construídos” a partir do local e sociedade em que vivemos. Os sentidos das pessoas que moram em floresta foram treinados para a perfeita adaptação desses homens a esses locais. O inverso também acontece.
O antropólogo e professor da UFRJ José Carlos Rodrigues nos relata em seu livro “Comunicação e Significado”[1] um estudo que empreendeu em uma obra com a finalidade de diminuir os acidentes de trabalho. Para tanto empreendeu um estudo antropológico em que identificou que a incidência de acidentes era maior entre as pessoas recém-chegadas do interior. Por que isso? Menor grau de instrução?
Certamente que não, a conclusão a que o professor chegou foi a de que essas pessoas provenientes de outros locais não tinham seus corpos e percepções treinadas para viverem em um local onde os perigos são iminentes e os espaços diminutos. Esses homens provenientes do campo sempre viveram em grandes extensões de terra, os perigos eram quase todos naturais (animais, insetos) e a essa nova realidade e aos perigos dessa nova realidade seus sentidos não estavam preparados.
[1] RODRIGUES. José Carlos. Comunicação e Significado: Escritos Indisciplinares. Manuad X: Editora PUC Rio. Rio de Janeiro. 2006.
Com certeza não. O que devemos levar em conta nesse caso e é que nossos sentidos são “construídos” a partir do local e sociedade em que vivemos. Os sentidos das pessoas que moram em floresta foram treinados para a perfeita adaptação desses homens a esses locais. O inverso também acontece.
O antropólogo e professor da UFRJ José Carlos Rodrigues nos relata em seu livro “Comunicação e Significado”[1] um estudo que empreendeu em uma obra com a finalidade de diminuir os acidentes de trabalho. Para tanto empreendeu um estudo antropológico em que identificou que a incidência de acidentes era maior entre as pessoas recém-chegadas do interior. Por que isso? Menor grau de instrução?
Certamente que não, a conclusão a que o professor chegou foi a de que essas pessoas provenientes de outros locais não tinham seus corpos e percepções treinadas para viverem em um local onde os perigos são iminentes e os espaços diminutos. Esses homens provenientes do campo sempre viveram em grandes extensões de terra, os perigos eram quase todos naturais (animais, insetos) e a essa nova realidade e aos perigos dessa nova realidade seus sentidos não estavam preparados.
[1] RODRIGUES. José Carlos. Comunicação e Significado: Escritos Indisciplinares. Manuad X: Editora PUC Rio. Rio de Janeiro. 2006.
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