sábado, 31 de outubro de 2009

Nação de “ninguéns”

É comum ouvirmos críticas a postura do povo brasileiro, quase sempre passivo as mudanças propostas pelos governantes. Dizem que somos apolíticos, acomodados, que temos uma postura de espera que o Estado faça as coisas por nós e que deveríamos construir nossos rumos e os de nosso país. Tudo isso é correto, não podemos negar que isso ocorre mesmo e que seria importante mudar esse estado de coisas. Aliás, diga-se de passagem, já passou da hora de tomarmos essa atitude. Porém precisamos refletir sobre alguns pontos: Na maioria dos países, o nascimento do sentimento de nacionalismo surgiu antes do que o Estado, primeiro houve o sentimento coletivo de fazer parte de um mesmo povo, mesmo país, mesma nação e esse sentimento levou e fomentou a criação dos Estados independentes. No Brasil, ocorreu ao contrário, a criação do Estado antecipou-se ao sentimento de ser brasileiro. O Brasil tornou-se nação formada por um povo que nem tinham consciência do que era ser brasileiro, esse povo eram ninguém. Os mestiços que nasciam na terra, não eram índios, não eram africanos e nem portugueses. Eles discriminavam índios e negros, pois não queriam pertencer a esse grupo social, e eram discriminados pelos portugueses que os consideravam mestiços, portanto, inferiores. Aliás, a palavra brasileiro por si só já demonstra esse preconceito, pois na língua portuguesa o sufixo pátrio, gentílico é o “ense”. Paranaense, piauiense, maranhense e assim vai. O sufixo “eiro” designa profissão, por exemplo, padeiro, pedreiro, faxineiro, etc. Assim, brasileiro era a profissão exercida por quem cortava pau-brasil, era profissão e funcionou para designar essas pessoas que não nada, não pertencia a nada e ficou brasileiro. Antes de ser motivo de orgulho para essas pessoas, era antes de tudo um termo que as rebaixavam, então, como querer que um povo se engaje em algo? Um povo excluído, discriminado, rebaixado. Prova disso é que todas revoluções populares foram sufocadas a ferro e a fogo. Nossa independência e proclamação da República foram alijadas da participação popular, as pessoas nem sabiam o que estavam acontecendo e para elas, essas canetadas mudaram pouca coisa. Sobre esse assunto, coloco um vídeo do Darcy Ribeiro em que o próprio autor nos fala dessa nação feita de ninguéns. É preciso ter isso em mente para entendermos toda nossa falta de amor próprio.

2 comentários:

  1. O texto mostra uma observação que pode mesmo explicar o descaso do Brasil com sua politica. A maioria dos países hermanos possui maior participação popular. A nossa constituição promulgada nos dá ferramentas para agir. E afirma que o PODER constituinte é do povo, que poderá funcionar de forma direta ou pelos seus representantes eleitos. Contudo não fazemos algo, talvez ainda com a mentalidade de que somos meros cortadores de pau-brasil e que os "engravatados que se entendam.

    ResponderExcluir
  2. Axézão, você fez uma bela Leitura do texto, em poucas palavras expressou o cerne da questão, é isso aí mesmo que quis provocar ao escrever esse texto

    ResponderExcluir