
Uma coisa tenho certeza. De que é impossível para qualquer ser humano fugir de sua própria essência. Podemos representar sermos algo que não somos, mas não por muito tempo, mais cedo ou mais tarde cometemos um ato falho e entregamos aquilo que realmente somos e pensamos, nossa essência aprisionada por nós explode e fala mais alto.
E porque isso acontece? Simplesmente porque somos um discurso composto por vários textos. O mundo é formado por discursos que são compostos por vários textos e texto é tudo aquilo que possui expressão, estrutura e delimitação. A expressão é variável, mas a estrutura é aquilo que define o texto tal qual ele é.
Para tornar mais claro, recorreremos a um exemplo, uma casa é um discurso, pois discurso é tudo aquilo moldado a fazer sentido a alguém, e o modo como uma casa é construída faz sentido a alguém que de cara reconhece como casa. Ela é composta por textos que são os cômodos e cada texto possui sua expressão, sua estrutura e sua limitação.
Expressão é o modo como o texto se mostra, a estrutura é o que define como tal e a delimitação são suas fronteiras que permite confrontá-lo com os outros textos. Voltando ao exemplo, o banheiro é um texto do discurso casa, então ele possui uma expressão, a cor das paredes, o piso do chão, os azulejos, a cor das louças, isso pode mudar e continuará sendo banheiro.
Esse cômodo também possui uma estrutura, a pia em um canto, a privada em outro, o chuveiro e a banheira. Existe banheiro sem privada? Pode existir, mas com certeza não será mais um banheiro, será uma sala de banho. A estrutura não pode mudar, pois a coisa se transforma em outra. Um carro sem pneus? A propulsão a ar? Pode, mas com certeza a estrutura já estará tão modificada que não será mais um carro e sim uma nave espacial. A delimitação nos indica até onde vai o banheiro e aonde começa outro texto, a cozinha, por exemplo.
Essas três dimensões lógico que estão presente em nós, pois como afirmei somos um discurso composto por textos. Nossa expressão é a roupa que vestimos, o penteado do cabelo, ou seja, como nos queremos nos mostrar, casual, desleixado, responsável. Isso podemos controlar.
Como seres organizados por textos e compondo também um texto, também possuímos uma estrutura e essa é imutável, podemos mudar a nossa roupa, mas continuamos a sermos nós, com todas nossas crenças, ideologias, medos, angústias, petulância, orgulho, vaidade e toda sorte de sentimento, e isso não podemos mudar, se mudarmos nós transformamos em outra pessoa, em alguém diferente e isso é processo difícil, doloroso e que não acredito que possa ocorrer totalmente. Um resquício da velha estrutura permanece e a qualquer momento ela explode e expõe tudo aquilo que tentamos esconder a sete chaves.
Talvez seja por isso que aceitamos ter defeitos, até os reconhecemos, dizemos para nós mesmo que precisamos melhorar e outras besteiras mais que nunca fazemos, aceitamos tudo isso, mas não aceitamos que ninguém nos aponte eles. Quando outra pessoa nos joga na cara defeitos que sabemos ser nossos dói demais. Acredito que a dor desse momento provem muito mais de nos acharmos expostos a outrem do que do nosso defeito em si. Afinal, fomos pegos no flagra, nossa mascará caiu, a pintura linda do banheiro caiu e vemos nossas vísceras, a tubulação do nosso esgoto exposta.
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