Há um livro que eu gostei muito de ler e aprendi muito com ele. O título é Amor, Poesia e Sabedoria, seu autor: Edgar Morin. Entre outras coisas, o pensador afirma que a vida tem duas dimensões, a que ele chama de poética e prosaica. A vida prosaica seria o ramerrão de Guimarães Rosa, ou seja, a rotina, o trabalho e a dimensão poética seria o sonho, o amor. Só aguentamos a vida prosaica devido a esses intervalos poéticos.
Sem dúvida, analisando alguns fatos, percebemos que Morin tem razão ao colocar isso, pois o ser humano está sempre criando meios para fugir da realidade que o pressiona e o endurece. Esses meios são o sonho, os jogos e as brincadeiras e as substâncias químicas, alucinógenas.
Quando sonhamos, nos depreendemos de nossa realidade, do nosso dia-a-dia, nele podemos tudo, somos capazes de voar, falar tudo o que pensamos, bater, xingar, a mulher que desejamos é nossa, o galã da novela é nosso amigo e olham para mulheres normais. E isso é algo natural, o nosso próprio aparelho biológico nos dá essa possibilidade.
Mas para o homem é pouco, ele cria também artificialmente meios que o possibilitem fugir da vida que levam. Por isso, as crianças levam tão a sério as brincadeiras, ali é uma simulação da guerra adulta, ganhar uma brincadeira é um modo de subjugar o adversário, se sentir o vencedor, o bom e esses são sentimentos que não nos acompanham diariamente. Os jogos funcionam de modo similar para os adultos.
A química também auxilia o ser humano na criação desses pontos de fuga. Em todas as culturas, em todos os tempos, o homem sempre teve o auxilio de substâncias alucinógenas que o permitissem suportar a dura realidade. O Cauim indígena, o saquê feito de arroz japonês, o rum dos piratas, o ópio chinês, a cachaça brasileira, a maconha, a cocaína, a heroína, o moderno e caro êxtase, o barato crak, todas as culturas, todas as camadas sociais têm e contam com esses artifícios.
O ser humano nunca parece contente com sua realidade, uns se incomodam por serem gordos, outros por serem magros, por serem brancos, por serem negros, por terem um nariz grande, por terem um pau pequeno, por serem peludos, por suarem demais, por serem carecas. Um tira o sarro do outro por um motivo e se sente infeliz por um motivo, criando uma sociedade de rejeitados, onde a fuga é o caminho que o resta.
E tudo é fuga, não criemos ilusão. A igreja é uma fuga, a procura de um sustento para resistir a dura realidade. Cada um tem seu modo, uns mais agressivos sem dúvida, mas são pontos de fuga do mesmo jeito. Sempre encarei a frase de Marx de que a religião é o ópio do povo, como sendo a religião como algo que entorpece as pessoas e as impedem de lutar. Hoje vejo um novo sentido, a religião é o ópio do povo, pois também é uma fuga.
O que quero dizer com esse texto, é que mecanismos de fuga existem, são necessários e mais, é algo inerente ao homem, todos temos os nossos, alguns perversos como as drogas, mas quem somos para apontar o dedo inquisidor a essas pessoas. Porém, mesmo sabendo que isso é inerente, temos que sermos fortes e estarmos preparados para a dimensão prosaica da vida, saber que os momentos poéticos são apenas pilastras para resistirmos ao dia-a-dia, apenas isso. Não podemos viver apenas de sonhos e poesia, assim como não podemos viver apenas de prosa e realidade
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