quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Gostar do que não presta


A afirmação com a qual começo este texto é possível? É plausível gostar daquilo que é ruim? Ao meu modo de ver a resposta é afirmativa. Gostar tem a ver com a emoção e o bom e o ruim tem a ver com a razão. Sem dúvida, temos a tendência de gostar do que é bom, pois em filosofia estética antecede a ética. Sim, pois primeiro percebemos para depois entender.
Às vezes compramos algo que depois percebemos que não valeu o investimento, mas que em um primeiro momento gostamos muito. Somente os sábios gregos procuraram definir o gosto de um modo racional. Para isso criaram até uma medida áurea para designar o belo, e afirmaram que o bonito é simétrico. Mas, sinceramente, nunca vi ninguém com um metro procurando as medidas de um vestido, a não ser para saber se caba no corpo ou não.
Temos que ter essa noção muito clara, gostar é emoção, bom e ruim é juízo de valor e para tanto é preciso algum tempo para certa análise, e porque precisamos ter isso claro em nós? Para não fazer papel de bobo, ignorante. Há muitas pessoas que falam tal música, estilo musical, filme, livro, cantor, autor, diretor é ruim, não gosto dele.
Ora, não gostar é um direito que cada um tem, agora falar que tal coisa ruim é preciso conhecer. Eu não gosto de música instrumental isso é fato. Mas não posso negar que é brilhante a capacidade de harmonizar cada um instrumento para formar um conjunto que leve a quem escuta uma sensação agradável, é interessante notar cada instrumento em separado, é até gostoso, reconheço, mas mesmo assim não gosto, não mexe comigo, não tenho paciência, mas de modo algum posso falar que é ruim, isso seria demonstrar uma ignorância total ou nos dizeres de um amigo meu: passar atestado de burrice.
E como gostar está no nível da sensação, cada pessoa sente e vê o mundo e os signos que a rodeia de um modo próprio. Uma canção mexe comigo por determinadas razões, meramente, pessoais e essas razões podem não fazer parte do universo e não mexer com ele. E isso, ter essa clareza, no meu modo ver, é mais um passo no caminho da tolerância, aceitação das diferenças e do outro.
Existem pessoas que chegam a brigar se alguém critica seu lugar de origem. Ora, minha cidade representa uma história para mim, ela é mais que um mero ponto geográfico, é um lugar. Mas para o outro é apenas mais uma cidade e ele tem todo o direito de achar defeitos, de não gostar. Claro, que ele pode não gostar, mas falar que o lugar é ruim é necessário que ele o conheça.
Conhecendo que gostar é uma coisa e achar bom é outra coisa, podemos ter clareza em criticar aquilo que gostamos sem aquela culpa que geralmente nos acomete nesses casos, pois sei que a coisa apresenta defeitos, os reconheço, mas mexe comigo de uma forma que eu não posso deixar de gostar.

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